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26 de Julho de 2004
Clipping - Revista Época: "Divórcio sem (muito) stress"
Os divórcios aumentaram 55% entre 1991 e 2002. Metade dos separados casa novamente
Diz o ditado que o amor é míope e o casamento não passa de um bom par de óculos. Mas se a vida a dois não é fácil, colocar fim a uma união pode ser um desafio ainda mais desgastante. A separação é classificada pelos psiquiatras como uma das maiores causas de stress, comparável em intensidade à dor provocada pela morte de uma pessoa querida. Pudera. Embora o casa-separa tenha se tornado corriqueiro nas melhores famílias, o ideal de felicidade para a maioria dos brasileiros continua a ser uma parceria 'até que a morte os separe'. E, apesar dos maus-bocados emocionais e financeiros de quem rompe um relacionamento, mais da metade dos divorciados parte para outra união. O número de recasamentos saltou de 47 mil em 1984 para 95 mil em 2002, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O grande desafio é conduzir a transição entre as uniões da forma menos traumática possível. 'Os casais deixam de ficar juntos porque não se dão bem, mas até para se divorciar é necessário ter um bom relacionamento', diz a psicóloga Regina Politi, do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo. Em meio a um turbilhão de emoções como frustração, orgulho ferido e abandono, quem se separa ainda precisa resolver questões práticas: com quem ficam as crianças, valor da pensão, divisão dos bens. Para sobreviver ao divórcio sem perder o chão, é preciso evitar, a todo custo, as acusações mútuas. 'O ideal é fazer um balanço de tudo o que foi bom e ruim e sobretudo reconhecer as observações do outro como legítimas', aconselha.
Se antigamente a crise no casamento se instalava no sétimo ano, hoje ela dá sinais nos primeiros 36 meses de vida em comum. O total de divórcios no país cresceu 55% entre 1991 e 2002. O número de separações aumentou 30%, enquanto os casamentos registraram queda de 4%. As rupturas ocorrem tanto entre os casais jovens como na população madura. 'A geração mais nova é imediatista, tem uma expectativa alta sobre o casamento, mas não quer investir a longo prazo', diz Regina. 'Já os casais de terceira idade estão revendo questões como a traição e decidindo pela separação', explica.
Hoje, segundo o IBGE, a duração média dos casamentos é de dez anos e meio. A conduta de cada parceiro no momento da separação determina o destino da relação dos ex-cônjuges no futuro. Conversas podem se transformar em brigas e um mero comentário irônico pode desencadear uma tempestade. O psicoterapeuta Luiz Cushnir, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, de São Paulo, aconselha: 'Faça uma lista de tudo o que precisa ser resolvido e não leve mais que duas horas nessas reuniões; conversas longas demais tornam-se desgastantes'.
Todo casamento tem um grande investimento emocional. Em caso de separação, porém, mesmo que se saiba que é a melhor decisão, é preciso lembrar que todos ficam no prejuízo. 'Casar é um contrato de risco, em que os sócios entram com o capital, formam patrimônio e fazem aportes financeiros', explica o advogado Luiz Kignel, do escritório Pompeu, Longo, Kignel & Cipullo. Seguindo esse raciocínio, as crises seriam as concordatas preventivas e o divórcio representaria a falência, com perdas materiais e emocionais. 'O que diferencia a empresa comercial da família são dois ativos indivisíveis: os filhos e a vaidade, que muitas vezes sai arranhada', diz. Em algumas situações, o adjetivo mais apropriado seria 'estraçalhada'.
A pedagoga Cláudia Baratella, de 35 anos, tinha acabado de dar à luz uma menina quando o marido, com quem estava casada havia cinco anos, resolveu sair de casa. 'Nove meses depois, descobri que ele tinha tido outra filha com a minha melhor amiga, que foi madrinha do nosso casamento.' Para superar o drama, Cláudia mergulhou no trabalho. 'A traição masculina a gente até perdoa, mas foi muito difícil saber que 'a outra' freqüentava minha casa', afirma. Apesar do adultério, a separação foi consensual e uma única advogada atendeu ambas as partes. Do casamento, em comunhão parcial de bens, restou pouco a ser dividido. Ele cedeu os eletrodomésticos; os CDs foram separados no par-ou-ímpar. A pedagoga deu a volta por cima a ponto de dispensar a pensão do ex-marido para a filha, hoje com 10 anos de idade. 'Ele só conseguiu pagar o valor integral no primeiro mês e, quando atrasou as parcelas do bufê onde seria comemorado o primeiro aniversário de nossa filha, rompemos de vez qualquer relação financeira', relembra.
A ETIQUETA DOS DIVORCIADOS
Nas festas familiares em que a presença dos dois é imprescindível, mantenha um comportamento discreto, principalmente se estiver acompanhado do novo parceiro(a)
Se o clima ainda estiver pesado na data do aniversário dos filhos, é preferível fazer duas festas ou trocar a comemoração por uma viagem
Em restaurantes e locais públicos, um cumprimento formal ou um leve aceno de cabeça são mais do que suficientes ao cruzar com o(a) ex
Seja elegante ao se referir ao ex, mas sem exagerar. Evite falar mal dele(a), ou permitir que outros falem na sua frente
Estimule e ajude seus filhos a presentear o pai (ou a mãe) em datas comemorativas
Respeite a privacidade do(a) ex. Mesmo que o apartamento ainda pertença aos dois, não vá sem avisar
Ainda que o relacionamento com o(a) ex seja bastante amigável, fazer programas sociais com os novos parceiros pode ser arriscado
Gentilezas excessivas, como emprestar a casa de campo ou o carro podem trazer conseqüências desagradáveis
Fonte: 'O Guia do Bom Divórcio', de Luiz Fernando Gevaerd, Atlântica Editora
Revista Época - 26 de julho de 2004
Autor: Mitsi Goulias
Diz o ditado que o amor é míope e o casamento não passa de um bom par de óculos. Mas se a vida a dois não é fácil, colocar fim a uma união pode ser um desafio ainda mais desgastante. A separação é classificada pelos psiquiatras como uma das maiores causas de stress, comparável em intensidade à dor provocada pela morte de uma pessoa querida. Pudera. Embora o casa-separa tenha se tornado corriqueiro nas melhores famílias, o ideal de felicidade para a maioria dos brasileiros continua a ser uma parceria 'até que a morte os separe'. E, apesar dos maus-bocados emocionais e financeiros de quem rompe um relacionamento, mais da metade dos divorciados parte para outra união. O número de recasamentos saltou de 47 mil em 1984 para 95 mil em 2002, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O grande desafio é conduzir a transição entre as uniões da forma menos traumática possível. 'Os casais deixam de ficar juntos porque não se dão bem, mas até para se divorciar é necessário ter um bom relacionamento', diz a psicóloga Regina Politi, do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo. Em meio a um turbilhão de emoções como frustração, orgulho ferido e abandono, quem se separa ainda precisa resolver questões práticas: com quem ficam as crianças, valor da pensão, divisão dos bens. Para sobreviver ao divórcio sem perder o chão, é preciso evitar, a todo custo, as acusações mútuas. 'O ideal é fazer um balanço de tudo o que foi bom e ruim e sobretudo reconhecer as observações do outro como legítimas', aconselha.
Se antigamente a crise no casamento se instalava no sétimo ano, hoje ela dá sinais nos primeiros 36 meses de vida em comum. O total de divórcios no país cresceu 55% entre 1991 e 2002. O número de separações aumentou 30%, enquanto os casamentos registraram queda de 4%. As rupturas ocorrem tanto entre os casais jovens como na população madura. 'A geração mais nova é imediatista, tem uma expectativa alta sobre o casamento, mas não quer investir a longo prazo', diz Regina. 'Já os casais de terceira idade estão revendo questões como a traição e decidindo pela separação', explica.
Hoje, segundo o IBGE, a duração média dos casamentos é de dez anos e meio. A conduta de cada parceiro no momento da separação determina o destino da relação dos ex-cônjuges no futuro. Conversas podem se transformar em brigas e um mero comentário irônico pode desencadear uma tempestade. O psicoterapeuta Luiz Cushnir, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, de São Paulo, aconselha: 'Faça uma lista de tudo o que precisa ser resolvido e não leve mais que duas horas nessas reuniões; conversas longas demais tornam-se desgastantes'.
Todo casamento tem um grande investimento emocional. Em caso de separação, porém, mesmo que se saiba que é a melhor decisão, é preciso lembrar que todos ficam no prejuízo. 'Casar é um contrato de risco, em que os sócios entram com o capital, formam patrimônio e fazem aportes financeiros', explica o advogado Luiz Kignel, do escritório Pompeu, Longo, Kignel & Cipullo. Seguindo esse raciocínio, as crises seriam as concordatas preventivas e o divórcio representaria a falência, com perdas materiais e emocionais. 'O que diferencia a empresa comercial da família são dois ativos indivisíveis: os filhos e a vaidade, que muitas vezes sai arranhada', diz. Em algumas situações, o adjetivo mais apropriado seria 'estraçalhada'.
A pedagoga Cláudia Baratella, de 35 anos, tinha acabado de dar à luz uma menina quando o marido, com quem estava casada havia cinco anos, resolveu sair de casa. 'Nove meses depois, descobri que ele tinha tido outra filha com a minha melhor amiga, que foi madrinha do nosso casamento.' Para superar o drama, Cláudia mergulhou no trabalho. 'A traição masculina a gente até perdoa, mas foi muito difícil saber que 'a outra' freqüentava minha casa', afirma. Apesar do adultério, a separação foi consensual e uma única advogada atendeu ambas as partes. Do casamento, em comunhão parcial de bens, restou pouco a ser dividido. Ele cedeu os eletrodomésticos; os CDs foram separados no par-ou-ímpar. A pedagoga deu a volta por cima a ponto de dispensar a pensão do ex-marido para a filha, hoje com 10 anos de idade. 'Ele só conseguiu pagar o valor integral no primeiro mês e, quando atrasou as parcelas do bufê onde seria comemorado o primeiro aniversário de nossa filha, rompemos de vez qualquer relação financeira', relembra.
A ETIQUETA DOS DIVORCIADOS
Nas festas familiares em que a presença dos dois é imprescindível, mantenha um comportamento discreto, principalmente se estiver acompanhado do novo parceiro(a)
Se o clima ainda estiver pesado na data do aniversário dos filhos, é preferível fazer duas festas ou trocar a comemoração por uma viagem
Em restaurantes e locais públicos, um cumprimento formal ou um leve aceno de cabeça são mais do que suficientes ao cruzar com o(a) ex
Seja elegante ao se referir ao ex, mas sem exagerar. Evite falar mal dele(a), ou permitir que outros falem na sua frente
Estimule e ajude seus filhos a presentear o pai (ou a mãe) em datas comemorativas
Respeite a privacidade do(a) ex. Mesmo que o apartamento ainda pertença aos dois, não vá sem avisar
Ainda que o relacionamento com o(a) ex seja bastante amigável, fazer programas sociais com os novos parceiros pode ser arriscado
Gentilezas excessivas, como emprestar a casa de campo ou o carro podem trazer conseqüências desagradáveis
Fonte: 'O Guia do Bom Divórcio', de Luiz Fernando Gevaerd, Atlântica Editora
Revista Época - 26 de julho de 2004
Autor: Mitsi Goulias