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12 de Agosto de 2011

Clipping - Portal Terra - Um dia no cartório da Bahia

Paquito
De Salvador (BA)


Espera mais um ano que eu vou ver
Vou ver o que posso fazer
Não posso resolver nesse momento
Pois não achei o teu requerimento


Os versos acima, de um samba de Noel Rosa, são precisos pra caracterizar o que acontece nos cartórios da Bahia. Há um projeto em andamento para privatizá-los, o que ocorreu em outros estados, e tornou o serviço melhor, ao que parece. Gente que se diz douta no assunto, como a presidente do TJ da Bahia, Telma Brito, alega que o projeto é inconstitucional. Eu, que não sou douto, mas, vez por outra, sou obrigado a freqüentar um desses estabelecimentos, deixo aqui, na minha coluna, uma narrativa da situação que tive que enfrentar, coincidentemente, na semana passada.

O meu bem precisava de um favorzinho, e me ofereci para auxiliá-la. Afinal, era só autenticar cópias de documentos para uma inscrição tal, o que, no entanto, tornava necessária uma ida ao cartório. A gente tem que chegar cedinho pra pegar as tais senhas. Conforme os crentes, também é preciso purgar os pecados cometidos ao longo da vida. Incréu, achei que podia burlar os desígnios sagrados e chegar um tantinho mais tarde, às 9:30.

Assim que entrei no recinto, qual não foi meu espanto ao notar que já se encontrava repleto, cerca de 120 almas, naquele momento, bem dispostas para o embate. 141 era o numerozinho da minha senha, digitado num simples pedaço de papel, humilde, diminuto, quase inexistente, e o quadro luminoso - única demonstração do high tech no local cheio de avisos (mal) escritos a caneta - andava pelos vinte e poucos.

Sentindo-me esperto, tracei o plano que, achei, não me faria passar tanto tempo entre aquelas paredes: saio, dou uma volta de uma hora no shopping mais próximo, folheio revistas, dou uma flanada etc.

Já numa livraria, entretido por aqueles livros de música, cheios de fotos coloridas de roqueiros ingleses heróicos - que, parece, nunca tinham ido a um cartório -, fui acometido de um pressentimento: e se, de repente, a maioria dos presentes, desiste e vai embora, deixando pra lá a senha, fazendo diminuir drasticamente a distância que me separa do atendimento e, quando, enfim, o meu número aparecer no quadro, eu não estiver, ao vivo e a cores, no local?

Pra não perder a vez e a razão, deixei os roqueiros pra lá, e retornei ao templo dos papéis e carimbos, um tanto tenso. Ao chegar, tendo passado uns quarenta minutos, o primeiro choque: o número do placar estava pelos trinta e alguma coisa, ou seja, pouco mais de 10 pessoas haviam sido atendidas em cerca de 40 minutos.

Estava com um livro, pensei em acomodar-me entre aquelas cadeiras, viajar na leitura e esperar mesmo, sem pressa, quase ludicamente, houvesse clima para devaneios dessa ordem. No entanto, um senhor mais aguerrido, diante de tanta espera e frieza no tratar, principiou uma discussão com uma das funcionárias que, gélida feito a face da morte, ameaçou chamar o segurança. Meio cansado da caminhada, e já ansioso, confesso que não tive concentração pra acompanhar o desenrolar da disputa, e resolvi sair pra bater perna mais uma vez.

Não havia muito a explorar nas proximidades, o shopping não era tão próximo que pudesse arriscar mais uma volta, e resolvi ligar pra um amigo que morava pertinho, pra, quem sabe, rápida visita. Mas ele não estava em casa e, por total falta de perspectiva, voltei para o interior do cartório, conformado e vencido.

Sentei em um dos poucos lugares vazios da sala repleta e voltei a meu livro, mas não por muito tempo, pois um sujeito ao lado começou a se queixar do atendimento. Só que ele não se queixava para alguém específico. Simplesmente, o homem jogava as lamúrias pra quem quisesse ouvir. Mas ninguém parecia lhe dar ouvidos: os demais rostos demonstravam cansaço, inércia e indiferença, e o próprio discurso do reclamante já não se fixava num assunto determinado, comentando a esmo variedades sem um nexo comum, num tipo de surto momentâneo.

Às vezes me via tomado de impulso, levantava-me e ia bater perna novamente, olhar o mar, mas se aproximava o meio-dia, e o sol, mesmo no inverno, não dava trégua. O (des)remédio era voltar, contemplar os desencantados - dos quais eu já fazia parte - e esperar até o desenlace quando, quem sabe, com a boa vontade dos homens de má vontade, eu finalmente conseguiria o almejado carimbo e assinatura que provariam ser verdadeiras aquelas cópias.

Lá pelas treze da tarde, sem lanchinho e sem almoço, o luminoso foi chegando perto do meu precioso número. Entre faminto e impaciente, contagiado pelo clima do lugar, já não mais tirava os olhos da plaquinha, obcecado, temente, escravizado às vontades do pedaço de metal brilhante.

Uma e meia da tarde, aparece o 141, eu me dirijo ao balcão, tiro atabalhoadamente os papéis da pasta de borracha, apenas para ouvir a ironia daquela mesma funcionária que destratara o senhor irritado horas atrás.

- O senhor nunca veio a um cartório?

Enquanto ela falava, um incauto abriu, inadvertidamente, uma porta que não era pra ser aberta, tanto que soou um alarme ensurdecedor que perdurou por minutos intermináveis. Pus, automaticamente, as mãos nos ouvidos, e os olhos em torno: não houve reação por parte dos presentes.

Tonto, meio surdo e respirando fundo, fui tentando seguir as instruções da funcionária, entregando cada original e sua cópia por vez, quando, de repente, ela implicou com a página de trás de um documento, onde havia um número num cantinho de baixo, quase imperceptível, pela metade.

- Essa cópia está incompleta, tem de tirar outra.

Completamente inerte, a minha reação foi perguntar se podia ir à Xerox do outro lado da rua, tirar outra cópia e não entrar de novo na fila, pois nem havia mais senhas. Ela concordou, enfrentei mais uma fila - da Xerox - e voltei. Ao receber de volta os documentos com as respectivas cópias e, finalmente, pagar pelos (des)serviços prestados, notei que outra cópia, que eu havia entregue, estava com o mesmo problema da cópia que ela não aceitara: um número no canto, pela metade. Só que essa segunda cópia a funcionária tinha autenticado, sem problemas.

No entanto, eu já era outro. Não discuti a incoerência dos fatos, baixei a cabeça, pus o rabo entre as pernas, e saí dali para o sol inclemente, mas, ainda assim, libertador. Meu amor esperava com o carro, ela tinha vindo me buscar. Entrei, ganhei um beijo reparador, e fomos pra casa, distantes, pelo menos por um bom tempo, daquele universo em desencanto.

Mais tarde fiquei pensando em Telma Brito e demais autoridades que opinam sobre assuntos que nos afetam diretamente, como esse da privatização dos cartórios: será que eles já passaram uma manhã inteira apenas para autenticar umas cópias? Já enfrentaram a indiferença dos funcionários desse tipo de estabelecimento? Vão lá uma vezinha, incógnitos; se possível, despidos da toga e dos tailleurs, misturem-se à vida comum dos homens comuns, estes que, na verdade, dão sustentabilidade a seus cargos incomuns e cheios de privilégios.

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