Notícias

03 de Setembro de 2011

Clipping - Jornal Folha de São Paulo - Coveiros suspendem greve até segunda (05.09)

Antes da decisão dos funerários, serviço estava quase normalizado com a ajuda da GCM e de funcionários terceirizados. "Diário Oficial" traz hoje autorização para contratar 135 coveiros e motoristas sem passar por concurso.

Pressionado por uma decisão judicial e enfraquecido pelas ações emergenciais da prefeitura, que pôs guardas-civis e terceirizados para enterrar e transportar corpos, o movimento grevista dos funcionários do serviço funerário de São Paulo foi suspenso até segunda-feira, quando haverá nova assembleia.

A categoria suspendeu a greve sem ter ter nenhuma reivindicação atendida.
A Secretaria de Planejamento informou que o prefeito Gilberto Kassab (PSD) autorizou a contratação de cem sepultadores e 35 motoristas em caráter emergencial (sem concurso). A decisão seria publicada hoje no "Diário Oficial".
O prefeito já havia autorizado a abertura de concurso para os 135 postos, mas o processo leva até oito meses.

O pedido foi feito meses atrás pela Secretaria de Serviços -há deficit no setor-, mas só agora foi atendido por Kassab, em meio à crise, para intimidar os grevistas. Os coveiros iniciaram a greve na terça, com outros servidores, e atrasaram sepultamentos em até 48 horas.

A Justiça considerou a greve ilegal na quarta e fixou em R$ 60 mil a multa diária caso a paralisação não acabasse.

A categoria quer 39,79% de aumento no salário-base, que é de R$ 440,39. O menor salário para os servidores, após uma greve em junho, passou de R$ 545 para R$ 630, já somadas as gratificações.

Desde terça-feira, guardas-civis dirigiram os carros que fazem o transporte dos corpos, e terceirizados da limpeza fizeram os enterros.

O improviso causou muitos atrasos no começo. Ontem, porém, já não havia tumulto no SVO (Serviço de Verificação de Óbitos).

O sindicato afirmou que a prefeitura só adotou essas medidas em áreas nobres da cidade, mas o movimento em cemitérios de vários bairros estava perto do normal.
"A população não tem culpa, nós pedimos desculpas, mas o governo é intransigente. Saímos da greve sem nenhum centavo", disse Celso Osório, coveiro do cemitério da Vila Formosa (zona leste).

Segundo o secretário de Negócios Jurídicos do sindicato, João Batista Gomes, "a decisão da Justiça cassou o direito de greve". Ele diz que recorreu ontem contra a liminar.

Mesmo com a volta imediata, a categoria diz que a manutenção dos cemitérios e as exumações não serão feitas.

A Folha apurou que, agora, o sindicato tentará ampliar a greve no setor da saúde.


Sepultador vive cotidiano de filme de terror

Lidar com o risco das bactérias e se deparar com bichos estranhos faz parte do dia a dia.

O coveiro Elias Azeredo da Silva, 46, há 12 anos na lida com os mortos, é um faz-tudo no cemitério São Paulo.

Evangélico, casado, quatro filhos, atua como velorista (arrumador da sala de velório), sepultador, exumador, recepcionista, consolador. Estava em greve desde terça.

Nos anos de trabalho, o coveiro experimentou algumas das transformações mais notáveis da cidade: como a epidemia de obesidade e o excesso de gente (e de mortos).

"Atualmente, nossa maior dificuldade é lidar com o peso dos caixões. Não são raras urnas com até 200 kg. E os servidores são em geral franzinos. Cordas e alça dos caixões arrebentam. Eu já vi uma corda se romper e o peso todo descer em cima do joelho de um colega."

Silva sofreu uma hérnia inguinal que o fez ficar afastado por 45 dias. Causa: carregar excesso de peso. "Um colega não aguentou o peso do lado dele, e eu segurei. Deu um repuxo." Teve de operar.

Silva admite que tem um jeito diferente de lidar com a morte. "As pessoas têm muito medo. Eu não." Percebeu isso quando, aos 12 anos, ajudou os bombeiros de Campos dos Goytacazes, no norte fluminense, onde morava, a resgatar o corpo de um rapaz que se afogara havia vários dias.

"Prontifiquei-me a amarrar o cadáver. A surpresa foi quando minha mão entrou na carne putrefata. Mas nem me preocupei." Prestou concurso público e virou sepultador aos 35.

INSALUBRIDADE

A categoria recebe um adicional de insalubridade de R$ 46. "Recentemente, sofremos com o caso de um colega nosso, o Paulo Henrique, 37 anos, saudável. Depois de entrar em um túmulo para fazer uma exumação no cemitério do Campo Grande [na zona sul], ele teve uma doença misteriosa, nunca elucidada, e morreu. Esse é o fantasma que mais nos apavora -o risco invisível das bactérias."

É que os coveiros, segundo Silva, agora fazem exumações toda hora. "Temos de fazer, porque só existe aquela vaga naquele túmulo, e um cadáver espera para ser sepultado. O problema maior é que muitas vezes o corpo está naquela forma de putrefação que tecnicamente se chama de 'líquida'.

Os ossos podem ser retirados, mas o odor é massacrante -tanto, que às vezes trava a respiração."

E tem os bichos: "A gente mexe com baratas e vê seres que nunca viu na vida andando pelo corpo em decomposição", explica um colega.

Alcoolismo é "a" epidemia entre os profissionais. "Pode ser um jeito de enfrentar a brutalidade do trabalho", especula Silva.

A rotina dos sepultadores começa às 7h e vai até as 16h em dias comuns, chegando às 19h em dias de plantão -uma vez por semana.


Terceirizados vão fazer covas e encontram ossos em cemitério

De repente houve a surpresa. Funcionários de empresas terceirizadas pela prefeitura para o serviço de limpeza nos cemitérios trabalhavam como coveiros quando se depararam com ossos humanos.

"Essas coisas acontecem", disse um funcionário terceirizado que não se
identificou.

Ele e outros trabalhadores estavam fazendo covas no cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, ontem, quando descobriram a ossada. Um crânio e vários ossos. Não sabiam dizer se eles eram de apenas uma pessoa.

Os ossos foram separados e o trabalho continuou naturalmente, com muitas piadas sobre o ocorrido.

Segundo a presidente do sindicato dos trabalhadores no serviço funerário, Irene Batista de Paula, os terceirizados não são preparados para fazer o trabalho. "Eles não podem colocar uma pessoa despreparada para fazer o serviço de sepultador."


História do monopólio do serviço remonta ao século 16

Se há uma anomalia no serviço funerário paulistano, ela está não no direito de coveiros e motoristas entrarem em greve, que é inextinguível numa democracia, mas no fato de a prefeitura ter exclusividade no transporte e sepultamento de cadáveres.

Se, como já ocorreu num grande número de municípios brasileiros, o "monopólio da morte" tivesse sido quebrado, os transtornos provocados pela greve teriam sido provavelmente menores.

Quando há várias empresas de diferentes portes atuando num setor, paralisações de funcionários são menos prováveis e, mesmo quando ocorrem, raramente têm adesão maciça.

A pergunta que não quer calar, então, é por que os serviços funerários, que não se encaixam na definição de monopólio natural, como é o caso do fornecimento de energia, se tornaram um direito exclusivo da prefeitura?

A história remonta ao século 16 e à igreja. Quem primeiro exerceu o "monopólio da morte" em Portugal e todas as suas colônias foram as Santas Casas de Misericórdia. Havia pelo menos uma justificativa racional.

A concessão da exclusividade para alugar tumbas, ornatos e realizar enterramentos foi dada pelo rei como uma espécie de compensação pelo fato de as Santas Casas prestarem serviços médicos aos soldados e marinheiros de sua majestade. Logo os funerais se tornaram uma das mais importantes fontes de renda da instituição.

Quem desrespeitasse o privilégio da irmandade era excomungado e ainda por cima tinha de pagar uma multa. E, como a tradição ibérica adora um monopoliozinho, até hoje a Santa Casa de Misericórdia detém a exclusividade das loterias em Portugal.

De volta a São Paulo, a Santa Casa foi soberana no negócio de enterros até o finalzinho do século 19, quando o transmitiu para uma empresa privada, a Rodovalho Júnior & Cia, que o exerceu em bases monopolistas até 1941.

A situação ficou um pouco confusa, oscilando entre serviço privado e público até 1958, quando o então prefeito Adhemar de Barros, sempre atento a boas oportunidades, decidiu criar uma autarquia para cultivar o monopólio. É o Serviço Funerário de São Paulo, cuja fama dispensa comentários.

Assine nossa newsletter