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21 de Janeiro de 2013
Clipping - Jornal O Povo - Cristian: 11 anos, sem registro de nascimento e analfabeto
O garoto que mora na favela do Pau Fininho é um caso que mostra como será difícil derrubar o "muro da vergonha" em Fortaleza. Especialistas apontam que é possível encontrar solução com políticas de educação básica
Aos 11 anos de idade, Cristian (sem registro de nascimento) nunca frequentou uma escola. Nem ao menos tem vontade de ir a uma. O menino não sabe dizer o nome completo, tampouco o que será de seu destino. Sentado à rua sem calçamento, onde escorre um fio de dejetos do esgoto a céu aberto, tem ao menos um desejo: morar em um dos condomínios de luxo que vê do alto da favela do Pau Fininho. Para isso, ele próprio assevera, ao léu: "não preciso estudar".
O fosso que existe em Fortaleza e que aparta classes sociais tem nome. Na quarta-feira passada, Cristian era o retrato da "muralha da desigualdade" sentenciada pelo prefeito Roberto Cláudio no último dia 1º. O recanto onde o menino mora está encravado em uma das áreas mais nobres da Capital, onde não faltam serviços aos que têm um teto seguro para dormir. Ali ao lado, porém, no endereço de Cristian, não existe banheiro, esgotamento sanitário, calçamento.
Mora há pelo menos três anos debaixo de um emaranhado de tábuas - o melhor dos lares que já teve. "Pelo meno (sic) tem teto", comemorou, na conversa com O POVO. No bairro onde há pelo menos três escolas públicas próximas, o menino de 11 anos nunca esteve em uma delas por não ter registro de nascimento. Sem estudar, sem qualquer perspectiva para seu futuro, hoje ele representa uma geração perdida, que dificilmente pode ser resgatada.
O que pode ser feito
Para especialistas, se hoje existem crianças que chegarão à adolescência sem alfabetização, é pouco provável que o atual governo consiga reverter esse quadro para ver efeitos imediatos. O que a nova gestão fortalezense pode projetar é que isso não mais aconteça nas próximas gerações, começando, a partir de agora, as políticas de melhoria na Educação básica, garantindo o acesso a todos desde cedo.
"As fases iniciais da criança são cruciais para o aprendizado. Se ela não tem atenção naquele momento, vai ter comprometido todo o ciclo educacional. O investimento prioritário precisa ser na educação dos que hoje estão na faixa de cinco anos", teoriza o diretor do Instituto de Pesquisa e Estatística Econômica do Ceará, Flávio Ataliba.
Segundo ele, a partir de investimentos iniciais em serviços básicos, ao lado prioritariamente de políticas para educação, poderá ser traçado um primeiro caminho para Fortaleza se distanciar, aos poucos, da situação de desigualdade extrema. "Hoje, sabemos que as pessoas mais qualificadas, em média, ganham mais. Uma criança pobre que não tem acesso à educação de qualidade terá um efeito impactante muito grande e muitas vezes irreversível na capacidade produtiva", pontua. (Raquel Maia - raquelmaia@opovo.com.br)
Aos 11 anos de idade, Cristian (sem registro de nascimento) nunca frequentou uma escola. Nem ao menos tem vontade de ir a uma. O menino não sabe dizer o nome completo, tampouco o que será de seu destino. Sentado à rua sem calçamento, onde escorre um fio de dejetos do esgoto a céu aberto, tem ao menos um desejo: morar em um dos condomínios de luxo que vê do alto da favela do Pau Fininho. Para isso, ele próprio assevera, ao léu: "não preciso estudar".
O fosso que existe em Fortaleza e que aparta classes sociais tem nome. Na quarta-feira passada, Cristian era o retrato da "muralha da desigualdade" sentenciada pelo prefeito Roberto Cláudio no último dia 1º. O recanto onde o menino mora está encravado em uma das áreas mais nobres da Capital, onde não faltam serviços aos que têm um teto seguro para dormir. Ali ao lado, porém, no endereço de Cristian, não existe banheiro, esgotamento sanitário, calçamento.
Mora há pelo menos três anos debaixo de um emaranhado de tábuas - o melhor dos lares que já teve. "Pelo meno (sic) tem teto", comemorou, na conversa com O POVO. No bairro onde há pelo menos três escolas públicas próximas, o menino de 11 anos nunca esteve em uma delas por não ter registro de nascimento. Sem estudar, sem qualquer perspectiva para seu futuro, hoje ele representa uma geração perdida, que dificilmente pode ser resgatada.
O que pode ser feito
Para especialistas, se hoje existem crianças que chegarão à adolescência sem alfabetização, é pouco provável que o atual governo consiga reverter esse quadro para ver efeitos imediatos. O que a nova gestão fortalezense pode projetar é que isso não mais aconteça nas próximas gerações, começando, a partir de agora, as políticas de melhoria na Educação básica, garantindo o acesso a todos desde cedo.
"As fases iniciais da criança são cruciais para o aprendizado. Se ela não tem atenção naquele momento, vai ter comprometido todo o ciclo educacional. O investimento prioritário precisa ser na educação dos que hoje estão na faixa de cinco anos", teoriza o diretor do Instituto de Pesquisa e Estatística Econômica do Ceará, Flávio Ataliba.
Segundo ele, a partir de investimentos iniciais em serviços básicos, ao lado prioritariamente de políticas para educação, poderá ser traçado um primeiro caminho para Fortaleza se distanciar, aos poucos, da situação de desigualdade extrema. "Hoje, sabemos que as pessoas mais qualificadas, em média, ganham mais. Uma criança pobre que não tem acesso à educação de qualidade terá um efeito impactante muito grande e muitas vezes irreversível na capacidade produtiva", pontua. (Raquel Maia - raquelmaia@opovo.com.br)