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15 de Março de 2005

Clipping - Rede Globo - Jornal Nacional - Latinos Clandestinos - 14/03

Para quem mora em países mais pobres do que o Brasil, principalmente os da América do Sul, as nossas grandes cidades são vistas como terras de oportunidades. E a maioria chega sem saber quase nada sobre o que vai encontrar.

Vida nova, esperanças antigas. A família veio do Peru para enfrentar um mundo imenso no centro de São Paulo.

"Nós fomos ao shopping e vimos no mapa que São Paulo era maior. Aí decidimos que iríamos para São Paulo", conta a imigrante peruana Sabina Ruiz.

Ela deixou a faculdade, curso de marketing. Efrain, a engenharia civil. Vieram para o Brasil com o filho de 8 meses e vão vender churrasquinho na rua. Primeiro passo de um sonho bem maior.

"Um restaurante grande, que sempre tenha clientela nova, que seja conhecido", deseja o imigrante peruano Efrain Molina.

Não é fácil começar em terra estranha. Terreno disputado palmo a palmo por centenas de outros que sonham. E o fogo não cresce, a carne não assa, o cliente não chega. Tudo passa quando o cheirinho do churrasco quebra o gelo.

"É a primeira vez que estou saindo", diz Sabrina.
O Brasil sempre teve fama de acolher bem quem chega. Na imigração mais recente, de 1990 para cá, Manaus recebeu mais de 40 mil peruanos. Em Mato Grosso do Sul, foram viver 80 mil paraguaios. Porto Alegre foi escolhida por 50 mil sul-americanos. Mas é São Paulo, a capital brasileira dos latinos.

Só bolivianos são 80 mil. Ou 200 mil. Os números são incertos porque a grande maioria é clandestina no país, não tem visto de trabalho.

Uma praça quase no centro da cidade, mas isolada numa área industrial no meio do nada. Virou um ponto de encontro segregado. Todos os domingos, mais de 5 mil pessoas transformam o local numa pequena Bolívia.

Uma multidão passeia em meio às barracas. Artesanato, comida. O espanhol é a língua oficial. Num canto da praça um quadro com oferta de empregos. Todos na mesma área: costura.
A oferta pode acabar em lugares onde são freqüentes as denúncias de trabalho desumano. Jornadas intermináveis. Os bolivianos trabalham e moram no mesmo lugar. E vivem no silêncio imposto pela clandestinidade.

"Isso favorece a exploração, sem dúvida. Porque a pessoa está disposta a trabalhar a quantidade de horas que lhe são aplicadas, está disposta a pagar pelo seu trabalho, pelo espaço de moradia, disposta a pagar por alimentação. Se sobra alguma coisa, é muito bom", diz Juan Plaza, coordenador da Casa do Imigrante.

Os primeiros donos de oficinas também eram imigrantes, coreanos. Mas hoje, quase metade das 8 mil oficinas de costuras de São Paulo está nas mãos dos próprios bolivianos.

O Ministério Público do Trabalho acha que medidas de repressão de uma maneira isolada não resolve. Não é apenas um problema legal, mas social.

"A partir do momento em que houver uma flexibilização na permanência deles, com visto para trabalhar, esta exploração vai deixar de existir", espera a promotora Cristina Brasiliano.
Santos e Maria chegaram há quatro meses com emprego garantido, mas não era bem o que eles esperavam.

"Trabalhar de sete a dez horas", conta Santos.
"Eu suava muito. Respirávamos todos no ambiente poluído e o trabalho era muito cansativo", diz Maria.

Os dois agora fazem tratamento para se livrar da tuberculose. Doença que está ficando comum na comunidade boliviana. A longa jornada num local sem ventilação, o ambiente insalubre teve suas conseqüências.

Santos diz que espera ficar curado para voltar ao trabalho. Só reza, para que seja numa oficina melhor. O sonho interrompido é trazer os filhos, que ficaram com a avó. Maria não viu os primeiros passos, nem ouviu as primeiras palavras do caçula.

Ela diz que chora toda vez que fala com eles ao telefone. "Não agüento, é muito doloroso", lamenta.

Mas se depender de Santos, a separação será bem curta.

"Só peço que Deus me dê forças para trabalhar, é o nosso sonho no Brasil. Ter uma casa, um trabalho, um pequeno negócio e agradecer todas as pessoas que nos ajudaram", deseja.

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