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28 de Março de 2005

Clipping - Jornal O Globo: "Divórcio, a nova revolução na China"

Em dezembro do ano passado, a secretária executiva Lucy Qin, de 32 anos, viu-se afogada em burocracia. Mas por um bom motivo, diz ela. Num escritório de registros do distrito de Chaoyang, em Pequim, entregou comprovantes de residência, carteiras de identidade, certidão de casamento e um papel em que ela e o marido, cujo nome não revela, concordam em se separar após oito anos de casamento. A decisão, ainda não totalmente digerida por seus pais, provoca um estranho sentimento de tristeza e euforia. - Fui criada numa família em que as mulheres permaneciam casadas a vida inteira com o mesmo marido e aturavam todos os absurdos para manter o casamento. Minha geração conseguiu romper com essa opressão e agora tenho uma outra chance de ser feliz - diz ela, timidamente, sem se deixar, no entanto, fotografar. A história de Lucy e seu marido é apenas uma entre as de 1,613 milhão de casais chineses que decidiram se divorciar em 2004, um recorde histórico que representa um aumento de 21,7% em relação a 2003. Os casamentos também cresceram ano passado. Nada menos que 8,341 milhões de casais decidiram se juntar legalmente. Mas a taxa de crescimento foi de apenas 2,7% em relação a 2003.

Wu Changzhen, professor da Universidade Popular da China especialista em lei de família, afirmou em entrevista à agência de notícias estatal Xinhua que o crescimento dos divórcios na China tem duas razões. A primeira é de caráter cultural e derivada da abertura econômica que vem soprando ares mais liberais sobre o país. Atualmente, divorciar-se na China não carrega mais o estigma de fracasso que as antigas separações carimbavam na vida dos cônjuges. Empregadores e comunidade podiam evitar divórcio Mas a razão principal mesmo é de ordem burocrática. A revisão da Lei de Casamento da China, que entrou em vigor em 2003, simplificou a separação. - Os procedimentos para um casal se divorciar eram tão exaustivos que as pessoas preferiam manter um casamento arruinado a se separar - conta Zhao Baojun, um funcionário do centro de registros de Xicheng, em Pequim. Explique-se: antes, além dos documentos citados acima, um casal que queria se separar na China tinha que apresentar também uma recomendação escrita de seus empregadores (como que a dizer que a separação seria melhor para a produtividade da pessoa) ou um documento sobre a conveniência da separação escrito por um membro do comitê comunitário, formado por moradores de uma mesma região. Ou seja, um atestado de incompatibilidade fornecido pelos vizinhos. A empresa e a comunidade tinham poderes para interferir no processo.

Isso acabou, conta Zhao. Agora a Justiça garante o divórcio automático nos casos de violência doméstica, vício por entorpecentes ou substâncias químicas, adultério de um dos cônjuges e até vício em jogo. Nos casos de incompatibilidade pura e simples, há como discutir caso a caso nos tribunais e acordos podem ser fechados entre os casais, sem maiores traumas. E se a separação ficou mais fácil, o casamento também se simplificou. Virou um evento disputadíssimo e nunca se gastou tanto com as cerimônias. As lojas que vendem vestidos de noiva e ternos para noivos se multiplicam nas grandes cidades. Pesquisa feita pela empresa de marketing Horizon & Horizonkey em dez cidades chinesas com 3.212 pessoas de classe média mostra que mais de 60% dos casais que pretendem se casar vão gastar mais de 30.000 yuans (US$ 3.614) no evento.

Igrejas são cada vez mais usadas para casamentos

A indústria do casamento, na China, já movimenta cerca de 250 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 30 bilhões) por ano, segundo o governo. O fenômeno traz algumas curiosidades: apesar de a China ser um país ateu, o típico vestido de noiva branco com cauda e véus dos países cristãos é o preferido das chinesas de classe média. Para homens, casa-se de terno branco, preto e até dourado. Os casais são freqüentemente vistos nas imediações das poucas igrejas católicas da capital fazendo fotos para álbuns. Igrejas, aliás, vêm se tornando os locais preferidos para as cerimônias de casamento dos mais jovens. Lugares muito conhecidos ,como a Grande Muralha, também.

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