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17 de Maio de 2005

Empresário a favor da eutanásia doa órgãos e o corpo em cartório

Inusitado
Homem não quer ser velado ou sepultado


A morte é um dos maiores mistérios de nossa existência e ao mesmo tempo uma das poucas certezas que temos em vida. Diante de um fato tão enigmático, encarado com tristeza pela sociedade ocidental, a tradição manda que sejamos velados e depois sepultados em túmulos suntuosos ou a sete palmos da terra. Para muitos, está é a única maneira de se descansar em paz.

Decidido a fugir dessas tradições e a não ter um cemitério como sua última morada, o microempresário Adail Alves tomou uma atitude no mínimo diferente. Decidiu registrar em cartório o compromisso de doar seus órgãos para transplante e seu corpo para instituições de pesquisa ou faculdades. Ele vai mais longe: não quer ser velado.

Adail alega que seu objetivo principal é promover a doação de órgãos. Ao mesmo tempo, considera-se favorável a eutanásia, algo tão discutido nos últimos tempos.

O microempresário, nascido em Promissão, é solteiro, pai de cinco filhos, e mora sozinho. É bastante conhecido em sua cidade, localizada na região de Lins, a aproximadamente 80 quilômetros de Araçatuba.

Lá, foi candidato a vereador várias vezes, sem nunca ter se elegido. É colaborador em um jornal local e se considera um autodidata. "Infelizmente, não consegui fazer uma faculdade, mas nem por isso deixei de aprender muita coisa em política, ciência e sociologia", afirma Adail, que não completou o ensino médio.

RETRIBUIÇÃO - A paixão pela ciência foi um dos motivos que o levou a tomar a decisão de doar seus órgãos e seu corpo. Essa idéia, segundo ele, é antiga e foi amadurecendo com o tempo.

Com essa atitude, ele espera retribuir de alguma forma a saúde que tem até hoje. Sem revelar a idade, ele afirma nunca ter sido vítima de uma doença grave e pratica quase todos os dias vários exercícios, como natação, tênis, ciclismo e musculação.

"Não tenho nenhuma doença, pelo menos não que eu saiba", disse. "Ao doar meus órgãos e meu corpo, estou de alguma forma agradecendo a Deus pela saúde que tenho, pela vida, por tudo".

ALEGRIA - O microempresário também é favorável à eutanásia. "É uma questão de coerência. Por que viver se você está sem saúde?", questiona. Na declaração, Adail repudia a idéia de manter-se vivo artificialmente ligado a aparelhos ou com uma doença terminal, que não lhe permita condições dignas de vida.

No mesmo documento, Adail afirma que não deseja ter funeral. "Mas que brindem, com alegria, a minha feliz despedida que será, também, um manifesto contra a hipocrisia".

A hipocrisia a qual Adail se refere na declaração é a tradição de se velar e enterrar os mortos. O microempresário entende que essa tradição está ligada a valores morais e religiosos - aos quais a grande maioria se apega, mas quer ser um dos primeiros a quebrar essa tradição, ainda em vida.

"Se Cristo deu sua vida por nós, por que não posso doar meus órgãos e dar meu cadáver para ajudar os outros, já que se eu não fizer isso, tudo vai se decompor, se perder", acredita.

APOIO - Segundo Adail, sua família está ciente de sua vontade. "Todos aceitaram plenamente. Alguns fizeram ressalvas, mas todos estão cientes", diz.

Delma Clarice Alves, irmã e vizinha de Adail, afirma inicialmente ter ficado assustada com a decisão do irmão, mas que não se surpreendeu com a atitude. "Conhecendo e sabendo como ele é, agora acho que a decisão dele foi algo natural, que conta com meu apoio".

Sobre registrar em cartório o compromisso de doar seu cadáver, ela afirma que não teria a mesma coragem do irmão. "Doaria meus órgãos, mas não teria coragem de fazer isso que ele quer fazer", diz.

Denir Alves, também irmão de Adail, não só apóia a atitude do microempresário como também pensa em seguir seu exemplo. "Para mim, essa é uma atitude corajosa e nobre, que não faz parte da nossa cultura, mas que não deixa de ser louvável", declara. No princípio, Denir não pretendia tomar a mesma atitude do irmão, mas agora está propenso a seguir o mesmo caminho.

REAÇÃO - Para conseguir registrar em cartório seu compromisso, Adail precisou da assinatura de duas testemunhas. "Para arrumar essas testemunhas foi um sufoco. As pessoas davam risada, ninguém acreditava", diz.

A maioria das pessoas por ele consultada acreditava que tudo não passava de uma piada. Quando percebiam que o assunto era sério, declinavam do pedido, com medo da reação dos familiares e dos amigos. "As pessoas têm medo do que sua família vai pensar, já que se trata de algo polêmico, que envolve aspectos religiosos".

Adail afirma não temer a reação das pessoas, quando suas pretensões se tornarem públicas. "Vão me chamar de louco, mas não será a primeira vez", garante.

A respeito da morte - uma das razões dessa reportagem - o microempresário garante não ter medo. "Tenho medo da doença. Do resto, não temo nada", finaliza.

Autor: Marcelo Espinoza

Fonte: Folha da Região (Araçatuba)

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