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06 de Junho de 2005

Clipping - Jornal O Estado de São Paulo: "É tempo de Ryans e Kamyllys"

Para dar aos filhos nomes 'sofisticados', pais e mães inovam em grafias, adaptações e composições


Foi-se o tempo de João e Maria. Pais e mães cada vez mais querem que seus filhos tenham nomes sofisticados. Ou que pelo menos assim pareçam. Essa é a principal constatação diante dos 4.185 nomes registrados nos 58 cartórios da cidade de São Paulo ao longo da última semana de abril.

De acordo com o levantamento, feito pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais de São Paulo (Arpen-SP) a pedido do Estado, Gabriel, Gustavo, Guilherme e Mateus foram os nomes mais dados para os meninos. Júlia, Giovanna, Maria Eduarda e Isabela foram os mais populares entre as meninas. Mas o que mais chama a atenção na lista dos mais cotados é a presença de nomes que até pouco tempo atrás eram considerados excêntricos, como Nicholas e Ryan para eles e Nicole e Emily para elas.

Nomes que soam comuns podem surpreender no papel. Entre os 52 bebês batizados de Felipe naquela semana, um ganhou uma grafia um tanto heterodoxa: Fellype. No caso das meninas, a mutação gráfica é praticamente a regra. Das 15 que ganharam o nome de Camile, a que mais vai ter trabalho na hora de soletrar será Kamylly.

Os nomes que chegaram entre os dias 25 e 30 de abril ao cartório de registro civil de Ermelino Matarazzo, bairro pobre da zona leste de São Paulo, são uma síntese de como os brasileiros tendem a "florear": pondo K e Y em lugar de C e I (Kayo Henrique), adicionando H aleatoriamente (Jhulia Gabrielly e Hygor), duplicando letras, preferencialmente na última sílaba (Maria Gabryella), e aportuguesando as palavras (Deivid Henrique e Francisco Jhonata).

PRESTÍGIO SOCIAL

De acordo com especialistas, essa preferência por nomes pseudo-estrangeiros é reveladora. "Mostra o prestígio social que o inglês tem no Brasil", explica Eduardo Guimarães, professor do Instituto de Estudos de Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Os ricos podem viajar e ter contato real com o exterior. Os pobres não. Eles crêem que alcançam esse prestígio quando dão esses nomes aos seus filhos."

Uma análise mais cuidadosa confirma que os nomes variam de acordo com o nível social da família. No cartório da região do Parque do Ibirapuera, uma das áreas nobres de São Paulo, na zona sul, apenas 2 das 61 crianças registradas levavam a letra Y no nome. Já em Ermelino Matarazzo, dos 83 registros, 23 tinham Y, como Kimberllyn Karollin e Kayo Henrique.

Nascido num hospital público de Ermelino Matarazzo, o pequeno Bryan Moura da Silva acaba de completar 1 mês de vida. "Escolhi o nome por causa de um filme que vi na televisão. Bryan era o mocinho", justifica o pai, Roberto Moura da Silva, de 17 anos. Mas nem todos aprovaram. "Fazer o quê? É o gosto do pai e da mãe...", resigna-se a tia Delmira Teixeira, de 59 anos.

Ainda que o nome seja extravagante, os funcionários dos cartórios não podem se recusar a fazer o registro. "Mesmo com nove meses para pensar, muitos pais aparecem com os nomes mais esquisitos, que nem mesmo eles sabem como escrever. Dizemos: 'Não seria melhor se fosse de outro jeito?'. Mas é difícil que mudem, já chegam com a cabeça feita", conta a escrevente Flávia Dinamarco, do cartório do Belém, bairro da zona leste. "Nós só podemos interferir quando o nome vai expor a criança ao ridículo. Mas se é apenas feio, não há muito o que possamos fazer."

CELEBRIDADES

Dois nomes que também chamam a atenção entre os mais dados para os meninos são Cauã (e as variações Cauan, Kauã, Kauan e Kawan) e Caíque (Kaic, Kaick, Kaíke, Kaiky e Kayky), obviamente inspirados pelos galãs juvenis da televisão. "As pessoas chegavam a perguntar se meu nome era apelido", conta o ator global Cauã Reymond, de 25 anos. "Tenho problemas até hoje. Todos escrevem meu nome errado", diz o colega Kayky Brito, de 16. Ambos, porém, dizem que não adotariam outra identidade.

A influência das celebridades também pode ser sentida entre as meninas. Yasmin, o sexto mais popular, é o nome da modelo adolescente filha de Luiza Brunet. Embora não esteja na lista dos 15 mais cotados, Camilly Victória - como a filha de Carla Perez - foi um nome bastante dado para as paulistanas recém-nascidas, porém nenhum com os mesmos ornamentos gráficos concebidos pela dançarina baiana. As crianças registradas na última semana de abril se chamam Camile Vitória, Camilly Vitória, Kamile Vitória, Kamilly Victória e Kamyly Vitória.

A filha de Carla Perez e suas seguidoras mostram uma tendência. O professor Agostinho Dias Carneiro, da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), chama a atenção para o fato de os nomes compostos de hoje se formarem a partir de combinações que eram consideradas "bizarras" num passado não muito distante. Ele exemplifica: "Os nomes não podem mais ser José Carlos e Ana Maria. Agora precisam ser Pedro Henrique e Maria Eduarda".

Dos 4.185 nomes registrados em São Paulo naquela semana, havia apenas uma Ana Maria e nenhum José Carlos. Mas foram 54 meninas batizadas de Maria Eduarda e 42 meninos com o nome Pedro Henrique.

Para a autora do Livro dos Nomes (Editora Nobel) , Regina Obata, não há povo mais criativo que o brasileiro na hora de batizar os filhos. "Em outros lugares não é assim. Em Portugal, por exemplo, veja quanto Joaquim. Na Espanha, quanto José. Aqui é diferente, damos a todos os filhos nomes que começam com a mesma letra ou que terminam com a mesma sílaba, misturamos o nome do pai com o nome da mãe para criar outro. Não temos preconceitos nem amarras."

A mãe da recém-nascida Kayra Chrystal Venâncio dos Santos se orgulha do nome pomposo que escolheu para a filha. "Eu não queria que ela tivesse um nome popular, que todo mundo tem", conta a auxiliar de lavanderia Kátia Fernanda Venâncio, de 38 anos. "Meu filho viu num livro de nomes que, numa língua dessas, Kayra significa mulher da realeza. E Chrystal é para que ela tenha uma luz quando virar moça, uma luz bonita."

Mas por que não simplesmente Cristal? "Porque Chrystal a gente acha mais bonito", ri a mãe.

NOMES MAIS POPULARES

OS MENINOS

1.º - Gabriel (96 vezes)

2.º - Gustavo (96)

3.º - Guilherme (86)

4.º - Mateus (68)

5.º - Vítor (66)

6.º - Lucas (62)

7.º - Felipe (52)

8.º - Cauã (48)

9.º - Vinícius (45)

10.º - Pedro Henrique (42)

11.º - João Vítor (41)

12.º - Rafael (41)

13.º - Caíque (37)

14.º - Nicholas (36)

15.º - Ryan (31)

AS MENINAS

1.º - Júlia (88 vezes)

2.º - Giovanna (80)

3.º - Maria Eduarda (54)

4.º - Isabela (52)

5.º - Gabriela (43)

6.º - Yasmin (41)

7.º - Bianca (39)

8.º - Letícia (39)

9.º - Nicole (37)

10.º - Emily (36)

11.º - Beatriz (34)

12.º - Larissa (34)

13.º - Vitória (34)

14.º - Isabele (29)

15.º - Gabriele (26)

Data da Publicação:05.06.2005
Autor: Ricardo Westin

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