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06 de Julho de 2005

Clipping - Jornal O Diário de S.P. : "Sem crise de Identidade"

Trocar de nome é até possível, mas quem tem nomes curiosos como Ivoty, Reulis, Pensylvania e Gresiela gosta mesmo é da exclusividade


Com tantos Josés e Marias entre 180 milhões de brasileiros,não é fácil encontrar um nome sob medida. Quem acaba se destacando na multidão são aqueles que receberam dos pais um nome,digamos,mais exótico. Mas é melhor ser chamada de Macarena ou de Maria? Quem trocaria um José por Josnaldo?

Em alguns casos, a legislação brasileira até permite que o cidadão insatisfeito com seu nome possa mudá-lo em cartório (veja no texto abaixo). Mas aqueles que conseguem superar episódios constrangedores e conviver com histórias engraçadas acabam se acostumando com a "exclusividade".

O assistente financeiro Reulis Adriano de Jesus, de 23 anos, nunca pensou em mudar de nome e já se acostumou em ser chamado de "Reulis Potter" ou "Reulis Presley". Mas ele admite que as piadinhas não são problema. Afinal, o rapaz
tem mais três irmãos, todos com nomes improváveis: Edevilson, Melry e Kaytt.

"Adoro ser o único com esse nome. É só falar "Reulis" que todos se lembram de mim. É um privilégio ter um nome diferente", diz. Reulis só reclama mesmo quando tem de falar como se chama ao telefone: "Costumo repetir umas quatro vezes e ainda tenho que soletrar. E já me chamaram de Reiston, que, por sinal, é mais estranho que meu próprio nome", brinca.

A webdesigner Ivoty Silva Borba Cordeiro, de 47 anos, também carrega seu nome com orgulho - em tupi- guarani, ivoti quer dizer flor. Com ascendência indígena,Ivoty conta que nomes como o dela viraram marca registrada na família. "Minhas irmãs são Maraty e Itacy. Adoramos nossos nomes, mas é oito ou 80. Tem gente que adora, tem gente que odeia", reconhece.

Mas, assim como as Marias, Ivoty sabe que seu nome não é tão incomum como parece - existe até uma cidade gaúcha batizada assim."Certa vez, estava comprando lentes de contato e adivinhe qual o nome da vendedora? Dona Ivoti", diverte-se ela com as coincidências.

A comerciante Pensylvania Noêmia de Paiva dos Santos,de 43 anos, também conhece alguém com seu nome:sua avó, para quem seus pais quiseram prestar uma homenagem. Alguma relação com o estado norte-americano homônimo? Que nada,a família dela descende de portugueses e italianos.

"Sempre dizem que meu nome é difícil de ser esquecido,mas mesmo assim acabam trocando. Pessoalmente,já me chamaram de Transilvânia, mas acho que a pessoa não tinha muita noção de geografia. Por telefone,costumo virar Silvana. E em casa, ou para os amigos,é Vânia. Ou também pode ser Pen", explica ela, nos mínimos detalhes.

Muito complicado para as Marias e os Josés?

Mudar o nome é possível, mas dá trabalho


Incomodada com as rimas de mau-gosto que faziam com seu nome, a camareira Maria Raimunda Ferreira
Ribeiro, de 34 anos, é hoje, literalmente,outra pessoa. Em fevereiro, ela conseguiu na Justiça o direito de chamar-se Isabela. Seu pedido teve amparo numa lei que permite a alteração do nome quando a pessoa é exposta ao ridículo por conta dele.

Um exemplo mais comum está na inclusão ou até na substituição do verdadeiro nome por outro consagrado. É o caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que adicionou o apelido pelo qual ficou conhecido na luta sindical. "Mas qualquer mudança só ocorre por ação judicial. Sempre tem que se contratar um advogado e entrar com o pedido de troca na Justiça",esclarece Flávia Benito Teixeira,diretora da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais em São Paulo e responsável pelo 17ºCartório de Registro Civil da capital, na Bela Vista.

Ainda é possível mudar de nome em mais duas situações: quando um cidadão fizer parte de programas de proteção à testemunha ou quando uma pessoa tiver interesse em corrigir erros de ortografia.

Se quisesse, Gresiela de Jesus Nardim, de 29 anos, poderia alegar um erro de grafia para "consertar" seu nome. Afinal, alguém conhece outra Gresiela? Ela diz que já se incomodou quando criança, mas hoje ela não se preocupa e prefere ser direta quando pressente alguma dúvida. "Já vou logo entregando o RG. As pessoas não têm culpa da minha mãe ser tão criativa!",diz Gresiela.

Com toda a burocracia,são poucas as alterações oficiais. Durante 2004, em 13 dos 58 cartórios de registro civil da capital consultados,foram apenas dez trocas de nome concedidas judicialmente - menos de uma por mês. Pelo visto, Gresiela,Reulis, Ivoty e Pensylvania não estão interessados em engordar essa estatística.

Autor: Antonio Neto

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