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12 de Maio de 2009
Mas que nome é esse?
Espanto e chacota
Pessoas que tiveram azar na pia batismal e no cartório falam sobre as confusões que enfrentam
Qual é o seu nome? A pergunta pode ser simples, mas a resposta, para muita gente, é motivo de chacota, chateação ou pelo menos um bom pretexto para se apresentar pelo apelido. Este é o caso de gente que recebeu nomes praticamente exclusivos, como Robcrisluber, Carline ou Genicledsson e, no mínimo, precisam repetir o nome duas ou três vezes para se fazer entendido.
Apesar de gostar do nome, Robcrisluber Nadine, de 25 anos, já está acostumado a receber documentos com a grafia errada. "Até diplomas já vieram com erros" , diz. Para se apresentar, ele já tem uma estratégia. "Falo que sou o Robby". Por sinal, é por este apelido que ele é conhecido até mesmo na família. "Já na escola era Robin Hood", diz. Mas como ele é vendedor em uma livraria e sempre está com crachá, enfrenta a curiosidade das pessoas. Na verdade, ele pode dizer que carrega a família inteira no nome, formado a partir da junção de vários outros. O começo e o final vieram do pai, Roberto. Outro pedaço, da mãe, Cristiane. Para completar, recebeu a primeira sílaba do nome da irmã: Lucilene.
A operadora de caixa Claudinez Ferreira da Silva, de 19 anos, não tem pelo nome o mesmo sentimento de Robcrisluber. "Quero mudar. Odeio me chamar assim. Já fui confundida muitas vezes com homem e fico muito brava se alguém me chama de Claudinez. Para todo mundo, eu sou Cláudia", conta ela que pretende entrar com um pedido na Defensoria Pública para alterar seu registro. Nomes difíceis fazem parte da rotina da família da moça. Ela tem quatro irmãos: Carliane, de 20, Kelvin, de 16, Kelviane, de 13, e Ueldes, de 11.
Claudinez é mistura de Cláudia, um nome muito comum na família, com Inez, que a mãe, dona Lúcia, acha bonito. A mais velha ganhou no registro a mistura do nome do pai, Carlos, com Liane, que veio de uma tia. "É diferente, mas gosto. Não quero mudar". Kelvin foi tirado de um livro, assim como Ueldes. Já Kelviane é a mistura de Kelvin e Viviane, tirado de uma novela. "Quando fui decidir como meus filhos se chamariam, sempre quis ser criativa. Minha família queria que o Kelvin se chamasse José Élcio, mas eu acho muito feio. Não dá", diz a mãe.
Além da escolha da mãe, Genicledsson Silva Santos, de 15 anos, ganhou uma ajuda do próprio cartório para ter um nome bem diferente. A ideia era ter registrado o garoto como Genicleidsson. "Só fui descobrir que tinham tirado a letra 'i' quando ele tinha 5 anos. Nunca tinha me atentado para a diferença. Fui levá-lo para fazer o RG e a pessoa que me atendeu me mostrou que estava errado" , conta a cozinheira Ana Lúcia, mãe do garoto. Ela também fez questão de dar ao outro filho, de 14 anos, um nome bem diferente: Geniclebsson. "O pai dos meninos chama-se Genivaldo. Queria registrá-los com o nome do pai e alguma coisa diferente. Aí, ficava fazendo testes", diz ela. Os filhos já decidiram: quando completarem 18 anos, farão de tudo para mudar. "É muito chato. Ninguém entende e a gente ganha um monte de apelido", diz o mais velho.
DESEJO. Genicledsson sabe que ter nome diferente na periferia, onde ele mora, não é exclusividade. "Na escola, tem uns nomes que ninguém nunca ouviu falar", diz. A socióloga Maria Ruth de Castro tem uma explicação para este fato. "A grande quantidade de nomes estranhos ou vindos do inglês, comuns nas áreas mais pobres, são a expressão do desejo de mudança social. Ter um nome diferente ou então vindo de uma outra língua passa a ideia de que se trata de alguém privilegiado, que descartou a simplicidade que a vida na periferia carrega", explica.
CASO DO MILLÔR
Millôr Fernandes é o exemplo de que, muitas vezes, os próprios cartórios são responsáveis por criar nomes diferentes. O escritor, segundo o desejo dos pais, deveria se chamar Milton. "Mas, estranhamente, fui descobrir depois que meu nome era Millôr, pois o tabelião não chegou a cortar o T. Ele simplesmente, colocou um traço em cima do O, que mais parece um acento circunflexo". A descoberta do erro só ocorreu aos 6 anos, quando o escritor leu pela primeira vez sua certidão de nascimento. "Naquela época, as certidões eram feitas à mão. Meus pais nem perceberam o erro, pois a letra do tabelião era horrível. Um verdadeiro garrancho", conta Millôr, aos 86 anos.
Mudança é prevista em lei mas serviço é pouco procurado
A troca de nomes que causem algum tipo de constrangimento é prevista em lei, mas é um serviço pouco procurado, tanto no serviço público quanto no privado. O advogado Elpídio Francisco Ferraz, que trabalha na Defensoria Pública do Estado, diz que os advogados do órgão atendem, no máximo, duas pessoas por mês com este objetivo. "Este é o número médio de processos dessa natureza que chegam na Justiça também por meio de advogados particulares", explica o advogado. De acordo com Ferraz, o processo para a troca do nome é simples. A pessoa precisa apresentar justificativas, além de provar que não tem nenhum antecedente criminal, nem restrição financeira. "A experiência mostra que 90% dos casos acabam autorizados pelos juízes", diz.
A lei permite que haja a troca de nomes em três situações. A primeira delas é quando a pessoa deseja adicionar ao registro um apelido pelo qual ficou conhecido. Foi o que ocorreu com a apresentadora Xuxa, que oficialmente passou a se chamara Maria das Graças Xuxa Meneghel ou do presidente Lula, que foi registrado apenas como Luiz Inácio da Silva. A segunda possibilidade ocorre quando a pessoa tem um nome que lhe cause algum constrangimento. Há também a permissão para a troca do nome nos casos em que ocorreu algum erro na grafia. "Já atendi uma pessoa que oficialmente se chamava Valtemiro. Mas todo mundo o chamava de Valdomiro. Com um processo, foi possível fazer a troca", conta Ferraz.
Um dos casos mais recentes de troca de nome no Estado ocorreu com o técnico em computadores Derick Waltires de Souza Lopes, de 23 anos, que mora em Campinas. É assim que ele se apresenta hoje, cerca de dois meses depois de conseguir na Justiça o direito de mudar o nome com o qual foi batizado: Karol. "Era muito chato, pois eu era confundido com uma mulher. Se estava num consultório médico, por exemplo, e a recepcionista me chamava, todo mundo ficava olhando. Alguns até riam" , conta. O processo, feito por um advogado da Defensoria Pública, demorou cerca de 8 meses. O nome Karol foi escolhido pela mãe. "Ela não conseguia engravidar e fez uma promessa: se conseguisse ter filho e ele fosse homem, ganharia o mesmo nome de batismo do papa", conta o técnico. Quando ele nasceu, quem estava no trono de São Pedro era o polonês Karol Wojtyla que, ao assumir o posto de papa, passou a ser João Paulo II. "O problema é que Karol, em polonês, é nome de homem e, no Brasil, é de mulher", diz. Ao trocar de nome, o rapaz pensou muito antes de escolher o que ia constar em seus documentos e acabou aceitando uma sugestão da tia. "Derick, que ela viu em um filme, é diferente. Não queria qualquer nome. Ainda bem que minha mãe compreendeu a necessidade da mudança", afirma.
Pessoas que tiveram azar na pia batismal e no cartório falam sobre as confusões que enfrentam
Qual é o seu nome? A pergunta pode ser simples, mas a resposta, para muita gente, é motivo de chacota, chateação ou pelo menos um bom pretexto para se apresentar pelo apelido. Este é o caso de gente que recebeu nomes praticamente exclusivos, como Robcrisluber, Carline ou Genicledsson e, no mínimo, precisam repetir o nome duas ou três vezes para se fazer entendido.
Apesar de gostar do nome, Robcrisluber Nadine, de 25 anos, já está acostumado a receber documentos com a grafia errada. "Até diplomas já vieram com erros" , diz. Para se apresentar, ele já tem uma estratégia. "Falo que sou o Robby". Por sinal, é por este apelido que ele é conhecido até mesmo na família. "Já na escola era Robin Hood", diz. Mas como ele é vendedor em uma livraria e sempre está com crachá, enfrenta a curiosidade das pessoas. Na verdade, ele pode dizer que carrega a família inteira no nome, formado a partir da junção de vários outros. O começo e o final vieram do pai, Roberto. Outro pedaço, da mãe, Cristiane. Para completar, recebeu a primeira sílaba do nome da irmã: Lucilene.
A operadora de caixa Claudinez Ferreira da Silva, de 19 anos, não tem pelo nome o mesmo sentimento de Robcrisluber. "Quero mudar. Odeio me chamar assim. Já fui confundida muitas vezes com homem e fico muito brava se alguém me chama de Claudinez. Para todo mundo, eu sou Cláudia", conta ela que pretende entrar com um pedido na Defensoria Pública para alterar seu registro. Nomes difíceis fazem parte da rotina da família da moça. Ela tem quatro irmãos: Carliane, de 20, Kelvin, de 16, Kelviane, de 13, e Ueldes, de 11.
Claudinez é mistura de Cláudia, um nome muito comum na família, com Inez, que a mãe, dona Lúcia, acha bonito. A mais velha ganhou no registro a mistura do nome do pai, Carlos, com Liane, que veio de uma tia. "É diferente, mas gosto. Não quero mudar". Kelvin foi tirado de um livro, assim como Ueldes. Já Kelviane é a mistura de Kelvin e Viviane, tirado de uma novela. "Quando fui decidir como meus filhos se chamariam, sempre quis ser criativa. Minha família queria que o Kelvin se chamasse José Élcio, mas eu acho muito feio. Não dá", diz a mãe.
Além da escolha da mãe, Genicledsson Silva Santos, de 15 anos, ganhou uma ajuda do próprio cartório para ter um nome bem diferente. A ideia era ter registrado o garoto como Genicleidsson. "Só fui descobrir que tinham tirado a letra 'i' quando ele tinha 5 anos. Nunca tinha me atentado para a diferença. Fui levá-lo para fazer o RG e a pessoa que me atendeu me mostrou que estava errado" , conta a cozinheira Ana Lúcia, mãe do garoto. Ela também fez questão de dar ao outro filho, de 14 anos, um nome bem diferente: Geniclebsson. "O pai dos meninos chama-se Genivaldo. Queria registrá-los com o nome do pai e alguma coisa diferente. Aí, ficava fazendo testes", diz ela. Os filhos já decidiram: quando completarem 18 anos, farão de tudo para mudar. "É muito chato. Ninguém entende e a gente ganha um monte de apelido", diz o mais velho.
DESEJO. Genicledsson sabe que ter nome diferente na periferia, onde ele mora, não é exclusividade. "Na escola, tem uns nomes que ninguém nunca ouviu falar", diz. A socióloga Maria Ruth de Castro tem uma explicação para este fato. "A grande quantidade de nomes estranhos ou vindos do inglês, comuns nas áreas mais pobres, são a expressão do desejo de mudança social. Ter um nome diferente ou então vindo de uma outra língua passa a ideia de que se trata de alguém privilegiado, que descartou a simplicidade que a vida na periferia carrega", explica.
CASO DO MILLÔR
Millôr Fernandes é o exemplo de que, muitas vezes, os próprios cartórios são responsáveis por criar nomes diferentes. O escritor, segundo o desejo dos pais, deveria se chamar Milton. "Mas, estranhamente, fui descobrir depois que meu nome era Millôr, pois o tabelião não chegou a cortar o T. Ele simplesmente, colocou um traço em cima do O, que mais parece um acento circunflexo". A descoberta do erro só ocorreu aos 6 anos, quando o escritor leu pela primeira vez sua certidão de nascimento. "Naquela época, as certidões eram feitas à mão. Meus pais nem perceberam o erro, pois a letra do tabelião era horrível. Um verdadeiro garrancho", conta Millôr, aos 86 anos.
Mudança é prevista em lei mas serviço é pouco procurado
A troca de nomes que causem algum tipo de constrangimento é prevista em lei, mas é um serviço pouco procurado, tanto no serviço público quanto no privado. O advogado Elpídio Francisco Ferraz, que trabalha na Defensoria Pública do Estado, diz que os advogados do órgão atendem, no máximo, duas pessoas por mês com este objetivo. "Este é o número médio de processos dessa natureza que chegam na Justiça também por meio de advogados particulares", explica o advogado. De acordo com Ferraz, o processo para a troca do nome é simples. A pessoa precisa apresentar justificativas, além de provar que não tem nenhum antecedente criminal, nem restrição financeira. "A experiência mostra que 90% dos casos acabam autorizados pelos juízes", diz.
A lei permite que haja a troca de nomes em três situações. A primeira delas é quando a pessoa deseja adicionar ao registro um apelido pelo qual ficou conhecido. Foi o que ocorreu com a apresentadora Xuxa, que oficialmente passou a se chamara Maria das Graças Xuxa Meneghel ou do presidente Lula, que foi registrado apenas como Luiz Inácio da Silva. A segunda possibilidade ocorre quando a pessoa tem um nome que lhe cause algum constrangimento. Há também a permissão para a troca do nome nos casos em que ocorreu algum erro na grafia. "Já atendi uma pessoa que oficialmente se chamava Valtemiro. Mas todo mundo o chamava de Valdomiro. Com um processo, foi possível fazer a troca", conta Ferraz.
Um dos casos mais recentes de troca de nome no Estado ocorreu com o técnico em computadores Derick Waltires de Souza Lopes, de 23 anos, que mora em Campinas. É assim que ele se apresenta hoje, cerca de dois meses depois de conseguir na Justiça o direito de mudar o nome com o qual foi batizado: Karol. "Era muito chato, pois eu era confundido com uma mulher. Se estava num consultório médico, por exemplo, e a recepcionista me chamava, todo mundo ficava olhando. Alguns até riam" , conta. O processo, feito por um advogado da Defensoria Pública, demorou cerca de 8 meses. O nome Karol foi escolhido pela mãe. "Ela não conseguia engravidar e fez uma promessa: se conseguisse ter filho e ele fosse homem, ganharia o mesmo nome de batismo do papa", conta o técnico. Quando ele nasceu, quem estava no trono de São Pedro era o polonês Karol Wojtyla que, ao assumir o posto de papa, passou a ser João Paulo II. "O problema é que Karol, em polonês, é nome de homem e, no Brasil, é de mulher", diz. Ao trocar de nome, o rapaz pensou muito antes de escolher o que ia constar em seus documentos e acabou aceitando uma sugestão da tia. "Derick, que ela viu em um filme, é diferente. Não queria qualquer nome. Ainda bem que minha mãe compreendeu a necessidade da mudança", afirma.