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14 de Abril de 2003

"Carimbos, firmas e outros bichos"

Um mundo à parte, de expressões faciais tensas, negociações misteriosas e uma torcida para que tudo dê certo se revela nas filas dos cartórios. É um daqueles lugares que a gente espera não freqüentar com assiduidade, pois a gente nunca sabe lidar com a burocracia e sempre acha que está cometendo um pequeno deslize que pode comprometer um bom negócio ou atrapalhar o bom andamento de um processo.

Cartórios, agora, são sinônimo de modernidade. Estive num deles há poucos dias e fiquei impressionado. Computadores tornam procurações e outros documentos papéis muito mais decentes. As filas com senhas parecem mais rápidas. Até o reconhecimento de firma é mecânico, ato impensável anos atrás. Muito melhor do que as barulhentas máquinas de escrever, os milhares de carimbos e cópias.

Até os atendentes ficaram mais simpáticos. É claro que alguns ainda conversam entre si, se esquecendo que estão atendendo o público. Outros, no entanto, são prestativos, se interessam pelo assunto com o qual estão lidando.

Os dias mais cheios são às segundas e às quintas. Explicação: domingo e quinta sai nos classificados a maior quantidade de ofertas de automóveis. E segunda e quinta, por conseqüência, duplas de vendedores-compradores enfrentam as filas. Um olhando para o outro com aquele pensamento de ""será que não estou sendo enganado"" na cabeça. Mas a vida tem riscos....

Toda transação de cartório sempre parece um risco. Dúvidas existem aos montes na hora de assinar um papel. O texto da procuração assusta: como é esse negócio de transferir todos os poderes para outra pessoa? E aqueles termos jurídicos, parecem sempre querer tirar da gente mais poderes ainda...

E os tipos que se infiltram nos cartórios? Já repararam que dá para conhecer um cartório pelo tumulto na porta? Sempre tem alguém esperando alguém, o sujeito com a camisa pra fora da calça com uma pasta cheia de papéis, a mulher de tailleur e maquiagem pesada que está doida para se livrar daquele compromisso incômodo, o aposentado que foi fazer o favor para o filho que não tem tempo a perder com coisas burocráticas...

Esperar na fila, que em alguns cartórios é em cadeiras até confortáveis, também é um divertimento. Todo mundo tem uma história para contar. Os mais afoitos explicam por que estão ali, como foi confuso o negócio, quais são as pendências e quantas vezes já tiveram que voltar ao cartório porque esqueceram uma cópia importante ou uma assinatura imprescindível. Acabam contando os seus dramas, pedindo conselhos e - dependendo do amigo ao lado - indo aos guichês mais aliviados. Benditos sejam os pacientes ouvintes que esperam para autenticar documentos, reconhecer firmas ou fazer procurações.

Fonte: Correio Braziliense
Autor: Cláudio Fonseca

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