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Direitos de família e das sucessões precisam ser atualizados, dizem especialistas
Indissociáveis da vida de qualquer cidadão, o
direito de família e o direito das sucessões precisam passar por alterações
equilibradas para refletir de forma contemporânea e simplificada os anseios da
sociedade brasileira, como é o caso das propostas de divórcio unilateral e de
inversão do ônus da prova para a paternidade. Essa foi uma das constatações do
debate promovido na última quinta-feira (5) pela comissão temporária do Senado que analisa a atualização do
Código Civil.
A reunião foi conduzida pelo presidente do
colegiado, senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Ele é o autor do projeto de lei
que atualiza o Código Civil (PL 4/2025). Pacheco propõe atualizar mais de 900
artigos do código, além de adicionar cerca de 300 novos dispositivos.
Os debatedores reforçaram o papel do Parlamento
no aprimoramento do código, acrescentando que hoje, diante de tantas evoluções,
essa legislação já não consegue mais garantir de forma justa e igualitária os
direitos em questão. Já foram apresentadas 845 emendas ao projeto.
— É inegável que nos últimos anos e nas últimas
décadas, pós-edição do atual Código Civil, houve momentos de grandes
transformações sociais. Cito, por exemplo, o que vivenciamos com a era digital,
com o advento da internet, das novas formas de relacionamento, das plataformas
digitais. (...) Tanto que se discute hoje a herança digital, omitida no nosso
ordenamento jurídico. Então, houve uma transformação social que merece uma
atualização do Código Civil — disse Pacheco.
O senador também destacou que existe uma omissão
legislativa no ordenamento jurídico brasileiro em relação à união homoafetiva,
que, ressaltou ele, precisa ser urgentemente sanada. Ele lembrou que há 15 anos
vigora no país uma decisão do Supremo Tribunal Federal que reconhece as
famílias e as uniões homoafetivas, mas isso ainda não está garantido pela lei
civil brasileira.
Família
Juiz e professor da Universidade Federal da Bahia
(UFBA), Pablo Stolze Gagliano reforçou que a meta principal é desburocratizar o
Código Civil para facilitar a vida do povo brasileiro. Ele citou avanços como a
alteração automática do regime de bens sem efeitos retrativos, a inversão do
ônus da prova nos casos de paternidade e o divórcio unilateral (que é a
dissolução do casamento solicitada por apenas um dos cônjuges, sem que seja
necessário o consentimento do outro cônjuge).
— O Parlamento tem aqui uma grande oportunidade
de protagonismo no campo da família, que até hoje foi exercido pela
jurisprudência dos tribunais superiores. [Tem uma oportunidade de] protagonismo
na reforma do Código Civil, atendendo aos anseios de uma sociedade sofrida —
declarou Gagliano.
Presidente do Instituto Brasileiro de Direito de
Família (IBDFam), Rodrigo da Cunha Pereira disse que a lei precisa incorporar
novas expressões, como "abandono afetivo",
"socioafetividade", "divórcio unilateral", entre outras.
Ele salientou a importância do debate sobre a autonomia privada e o avanço na
ideia de que o Estado pode se afastar, cada vez mais, das questões de foro
íntimo da pessoa.
Já a professora Rosa Nery enfatizou que “temos um
país enorme, com variedade de concepções religiosas e sociais”. Por isso,
enfatizou ela, não há igualdade de pensamento sobre muitas coisas, o que fica
ainda mais evidente no direito de família. Rosa foi a relatora-geral do
anteprojeto (elaborado por uma comissão de juristas) que deu origem ao projeto
do senador Rodrigo Pacheco.
— Não há opiniões idênticas em questões de
família. Nós temos de encontrar um mecanismo de pacificação em muitas questões.
(...) Por exemplo: uma estatística de 500 mil crianças por ano sem o nome do
pai na sua certidão de nascimento é algo que obriga o civilista a se ajoelhar
diante de uma questão dessa — frisou Rosa.
Sucessões
A senadora Soraya Thronicke
(Podemos-MS) declarou que é preciso coragem para implementar as alterações
necessárias. Advogada, ela irá auxiliar o relator do projeto — o senador
Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) — nas questões do direito das sucessões.
— É um assunto delicado que precisa ser
discutido. (...) Não dá mais para permanecermos com [a herança do] código de
1916 — afirmou.
O advogado Mário Luiz Delgado Régis definiu como
incompreensível qualquer oposição à reforma do Código Civil. Ao declarar que o
Parlamento tem um desafio ímpar na renovação dessa legislação, ele reiterou a
avaliação de Soraya Thronicke: o direito das sucessões ainda preserva
muito do conteúdo do texto de 1916.
— Se há uma parte do Código Civil que demanda uma
atualização, e eu diria que é uma atualização urgente, é o direito das
sucessões. Os quatro títulos [sobre o assunto] estão desatualizados, e
essa desatualização gera problema para o dia a dia das pessoas — argumentou
Régis.
Ao dar um exemplo de uma atualização que julga
ser necessária, ele disse que o título das disposições gerais começa com um
problema em relação à legitimação para suceder. Régis observou que o texto
define que somente as pessoas já nascidas ou já concebidas na data da abertura
da sucessão tem esse direito. Mas, diante da evolução da ciência médica,
ele fez o seguinte questionamento: como ficam os direitos dos que são
concebidos por reprodução assistida após a morte do pai ou da mãe?
Professora de direito civil da Universidade de
São Paulo (USP), Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka afirmou que “o campo
das sucessões é de uma complexidade e insegurança jurídica imensa”.
— O regime vigente apresenta graves deficiências
e problemas técnicos, que geraram décadas de insegurança jurídica e litígios
familiares evitáveis. Estamos diante de um movimento pendular, digamos. Saímos
de 1916, em que a mulher era desprotegida. Fomos para 2002, com a figura do
cônjuge superprotegido por meio de uma concorrência complexa e confusa. E,
agora, o pêndulo retorna para o que desejamos que seja o centro, com a proposta
de remoção do instituto em nome da autonomia da vontade e da simplicidade, mas
com mecanismos de proteção complementares que não existem hoje — argumentou a
professora da USP.
O advogado e professor Flávio Tartuce destacou
que é preciso apresentar um texto que seja efetivo e estável. Tartuce foi
— junto com Rosa Nery — responsável pela relatoria-geral do anteprojeto
que deu origem à proposta de Rodrigo Pacheco.
— Diante de todas essas propostas, a gente
precisa de uma alternativa. O que realmente não dá é ficar como estamos em
matéria sucessória, porque o sistema é distante da realidade, é confuso e, em
certa medida, propicia o que estamos vendo hoje, que são fraudes sucessórias
por meio de pessoas jurídicas — alertou Tartuce.
Relatores parciais
Ao final da audiência, Rodrigo Pacheco anunciou a
lista dos relatores parciais para o projeto de lei de atualização do Código
Civil (eles irão auxiliar o senador Veneziano Vital do Rêgo, que é o
relator-geral da matéria):
·
Carlos Portinho (PL-RJ), para a responsabilidade
civil;
·
Efraim Filho (União-PB), para obrigações e
contratos;
·
Soraya Thronicke (Podemos-MS), para família e
sucessões;
·
Tereza Cristina (PP-MS), para a parte das
coisas.
Os estudos a serem elaborados deverão ser
apresentados até 30 de abril deste ano.
Fonte: Senado