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Escolha de nomes curiosos desafia bom senso e mobiliza cartórios no Brasil
Dados do IBGE revelam brasileiros registrados como
Picanha e Trânsito; legislação atual permite troca de nome diretamente no
cartório após os 18 anos
A escolha do nome de um filho é uma das primeiras e mais
duradouras responsabilidades dos pais, mas, no Brasil, a criatividade muitas
vezes ultrapassa as fronteiras do convencional. Dados do Censo 2022, compilados
na base "Nomes do Brasil" do IBGE, revelam registros inusitados que
vão de itens gastronômicos a termos do cotidiano urbano. Se alguém gritar por
"Picanha", "Farofa", "Pizza", "Bife" ou
"Macarrão", encontrará cidadãos devidamente registrados com esses
nomes.
A geografia da originalidade brasileira é vasta. Enquanto no
Norte do país encontram-se 65 pessoas registradas como "Primeiro", em
Minas Gerais concentram-se os 165 brasileiros chamados "Último". Em
Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, vive um exemplo vivo de tradição familiar
incomum: o senhor Trânsito. Em sua quarta geração com o mesmo nome, ele relata
com bom humor que, embora frequentemente seja apelidado de "Detran"
ou "Estrada", não tem qualquer intenção de mudar o registro.
O papel dos cartórios e o limite da subjetividade
Desde 2022, o processo para quem se sente constrangido com o
próprio nome tornou-se mais simples. Brasileiros maiores de 18 anos podem
solicitar a alteração diretamente nos cartórios de registro civil, sem a
necessidade de acionar a Justiça. A mudança na lei visa dar autonomia a pessoas
como Francinalda, que relata dificuldades diárias pela complexidade de seu nome
e o desejo de ter sido batizada como Gabriela.
A figura do oficial de cartório tornou-se central para
evitar que novas situações de constrangimento ocorram. Embora não exista uma
lista oficial de nomes proibidos no Brasil, a legislação confere ao registrador
o poder de recusar nomes que possam expor a criança ao ridículo ou causar
prejuízos sociais futuros. Trata-se de uma análise subjetiva, baseada no bom
senso, para garantir que a criatividade dos pais não se transforme em um fardo
para o filho.
Entre o erro de registro e a originalidade
A base de dados do IBGE também aponta curiosidades
estatísticas que beiram o poético ou o confuso. No Brasil, existem apenas 61
pessoas registradas oficialmente como "Amor", enquanto a
"Paixão" é mais comum, com 429 registros. Há ainda casos em que o
nome é, literalmente, "Nome" — registro compartilhado por pelo menos
43 pessoas.
O IBGE ressalta que, embora a base de dados reflita o que
foi coletado no Censo, não se pode descartar a ocorrência de erros de digitação
no momento do registro ou da coleta. No entanto, a maioria desses nomes
peculiares faz parte da identidade de um país que, na busca por ser único,
muitas vezes leva a originalidade ao extremo.